
Como pedagoga, psicopedagoga e pesquisadora em neurociência do conhecimento atuante há dez anos com ensino bilíngue e aquisição de segunda língua na infância (atual coordenadora da Tiny People Bilingual School em São Paulo), gostaria de fazer algumas considerações importantíssimas para esclarecer esse frequente questionamento sobre quando se deve ocorrer o contato da criança com um segundo idioma.
A idade mais apropriada para colocar a criança em contato com um novo idioma é desde o seu nascimento. Quanto mais cedo a criança for exposta a uma nova língua mais benefícios ela vai ter.
Alguns profissionais alegam que antes dos cinco anos, a criança ainda não diferencia a língua materna do novo idioma misturando as duas línguas, o que seria negativo. No entanto, é fundamental esclarecer que a “mistura de palavras”, normalmente apontada como “confusão”, é na verdade uma estratégia muito eficaz de construção da linguagem usada pela criança. Ela usa os sinônimos e estruturas da língua que já conhece para construir sua fala, para não interromper sua comunicação e esclarecer verbalmente suas ideias. Para a criança, a língua é um instrumento de comunicação usado para satisfazer suas necessidades. Ela possui suas próprias regras de fala. Como citou Jean Piaget, um dos mais importantes teóricos sobre desenvolvimento infantil, durante o processo de aquisição da linguagem, a criança começa a traduzir o pensamento em frases e a misturar as palavras seguindo um processo mental lógico. Isso independe da(s) língua(s) que se está adquirindo, seja a materna, a estrangeira ou ambas simultaneamente. Com o tempo, convívio com adultos e experiências linguísticas vivenciadas, a criança aprende as regras gramaticais do idioma e deixa de cometer essas “inadequações”. O mesmo acontece quando a criança está adquirindo somente uma língua, no caso, o português (sua língua materna). Quem nunca ouviu criança falar: “Eu sabo comer sozinha”; “Nós fizemos xiximos”; “Parei de batei já”; “Posso colocar o caçapete (capacete)?”.
Esses são casos típicos a partir dos quais podemos notar como a criança vai construindo sua fala seguindo sua própria lógica sobre as regras da língua que já conhece. O mesmo vai acontecer com outros idiomas.
Inúmeros estudos na área educacional, da linguística e da neurociência comprovam os benefícios do acesso a mais de um idioma em idades cada vez mais precoces. Isso porque a exposição da criança (durante a primeira infância) a mais de um idioma aumenta o número de conexões cerebrais (sinapses) o que afeta positivamente o desenvolvimento não só da sua capacidade linguística como também das suas capacidades cognitivas, criativas, intelectuais e sociais.
Além disso, quando a aquisição de dois idiomas acontece simultaneamente na infância, as informações ficam armazenadas no mesmo local do cérebro. Isso faz com que a criança adquira ambas as línguas mais rapidamente, sem sotaque e com mais naturalidade.
A aquisição de um segundo idioma na primeira infância também facilidade a aquisição de outros idiomas (quanto mais línguas você adquire, mais fácil será a aquisição de novos idiomas). Tudo isso sem dúvida proporciona inegáveis vantagens profissionais e acadêmicas.
O adulto tende a achar que a criança aprende um novo idioma do mesmo modo que ele, mas para a criança, quanto mais nova for, mais natural será esse processo. A criança não aprenderá um novo idioma, ela o adquirirá, assim como faz com sua língua materna.
Toda criança nasce pronta para falar qualquer idioma. Nenhuma criança sabe onde vai nascer. O que determinará o(s) idioma(s) que ela vai falar é o contexto linguístico no qual estiver inserida. Ou seja, se a criança nascer no Brasil e somente tiver contato com a língua portuguesa, será esse o idioma que vai falar. Se nascer no Brasil, mas estudar em uma escola bilíngue (por exemplo), ou se seus pais são fluentes em outro idioma e optam por usar essa língua na comunicação com a criança, ela vai falar os dois idiomas (no caso o português e a segunda língua), distinguindo naturalmente as situações de fala.
É uma pena que o bilinguismo infantil ainda seja tão pobremente compreendido no Brasil. Até por sermos um país monolíngue, muitos ainda desconhecem importantes questões sobre aquisição de segunda língua na infância e acabam tratando com ceticismo algo tão positivo para as crianças.
No entanto, vale lembrar que existem diversos países no mundo nos quais é comum a criança ter contato com dois ou mais idiomas desde o seu nascimento e que isso só traz benefícios para ela. São eles Canadá, Hong Kong, entre tantos outros da comunidade europeia.
Como citou o famoso linguista Noam Chomsky:
“a aquisição da linguagem é simplesmente um processo de desenvolvimento de capacidades inatas, de modo que os meninos e as meninas aprendem a falar da mesma forma que os pássaros aprendem a voar”.
Coloque seu filho em contato com novos idiomas o mais cedo possível!
Larissa Fonseca é pedagoga, pós-graduada em educação infantil e psicopedagogia. Especialista no Universo do Brincar pelo Centro de Estudos Filosóficos Palas Athena e em psicanálise e educação pelo Instituto de Psicologia da USP. Coordenadora pedagógica da Escola de Educação Infantil Bilíngue Tiny People.
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